Anoitece leitosamente por toda a cidade. A noite veste todos os cantinhos, e com esse ato nobre de anoitecer, cobre pedaços. Pedaços dos monumentos, dos momentos, dos postes, dos posters, das pessoas. As pessoas vagam pela cidade, expondo sempre a ínfima parte do que são de acordo com o fuso. Uns estão mais à mostra quando é de dia. Outros existem mais plenamente sob a magnético-enigmática influência lunar, e é dela que pretendo falar hoje.
Vejo gente diferente por todos os lados. As tribos da lua têm legendas que estão para os notívagos e os noturnos tais quais o braile está para o cego. Ninguém aqui é bebedor de sangue, mas também possuímos as asas pontudas da imaginação que captam bem os sons, que, como nós, só existem neste horário. Sons. São um bom guia - uma vez que a vista, já meio senil, não tem a mesma eficiência que os ouvidos. As tribos da lua são muitas. São as crianças vendendo amendoim do terminal de Niterói. É o cadeirante disforme que vende pipoca. São os velhos, as barbas sujas das caras macilentas parecendo cracas em naufragadas embarcações, dormindo sobre papelões. São os loucos, babando sua secreta verdade.
Enquanto a parca luz noturna esconde parte de seus rostos, ela espraia sua face mais dura, mais crua. São crentes orando por desvalidos. São os mulatos no pagode numa sexta-feira. São as putas e os travecos das esquinas, defendendo seu qualquer, os bêbados que adormecem com um sorriso vagabundo no rosto, os cachorros magros cheirando a carniça; Rose voltando da casa dos patrões para abraçar a filha. Nenhum deles se conhece, mas todos se convergem em um único mural, onde é a noite o regente.
Seja de modo glamourizante, seja sob seu prisma mais real, todas as tribos dessa cidade lunar têm essa mesma essência de se instalar sob o clima underground que a noite traz. Pela manhã, são meros outros. A luz do sol é turbulenta, egoísta, e ofusca as partes mais interessantes e verossímeis dessas pessoas. Na calmaria da luz noturna, a retina se relaxa e se expande, conseguindo ver (e assimilar) muito melhor os contornos, os desenhos e as expressões. Na noite, o território das fantasias ganha dimensão, porque, no escuro, elas têm onde se esconder, e brincam com o nosso imaginário. Nada é tão óbvio, ninguém me garantiu que os pequenos vendedores de amendoim não são anjos; que os pobres velhos que dormem nos bancos não são piratas falidos; que os fervorosos oradores não são assassinos. A lua tem esse poder de metamorfosear, de desdobrar, feito papel de bala, a mente humana.
As tribos que ritualizam suas verdades ao luar são as mais sinceras.